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Campo se rende aos “agroinfluencers” digitais

Uma turma com hábitos urbanos e ligada às redes sociais está servindo de inspiração ao mundo da pecuária, das lavouras e das hortas. As mesmas ferramentas – como Facebook, Instagram e o YouTube – que transformam desconhecidos em influenciadores digitais também se rendem a divulgar informações entre pecuaristas e agricultores conectados. No lugar de internautas com milhares de seguidores divulgando técnicas de maquiagem, moda, gastronomia e viagem, os cliques do campo são direcionados aos chamados “agroinfluencers”.

Os influenciadores digitais voltados ao agronegócio ainda são poucos e recentemente começam a ter suas referências nacionais. Mas já começam a chamar a atenção de grandes empresas, como a Bayer. No final do ano passado, a multinacional inaugurou, em São Paulo, um estúdio de gravação para influenciadores rurais. A estratégia é compreensível. Com o produtor cada vez mais conectado ao mundo digital para gestão e controles da propriedade e seus maquinários, a Bayer identificou que o trabalhador e o empresário do campo estão cada vez mais propensos a buscar informações técnicas, dicas e troca de experiências também nas redes sociais. E melhor ainda se vier diretamente de quem atua em uma propriedade rural ou por uma razão ou outra, se ligou ao agronegócio.

Inaugurado em outubro, o Rede AgroServices Space oferece gratuitamente um estúdio de gravação para influenciadores digitais ou pretendentes a se tornarem um. Consultores e técnicos ligados à Rede AgroServices também utilizam o espaço e recebem ali mesmo orientações para melhor transmitir os seus conteúdos, dicas e informações de forma virtual. E espectadores para esse modelo de comunicação não faltam. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócios, realizada em 2017, sobre hábitos do agricultor aponta que 61% dos produtores rurais utilizam smartphone, alta de 44 pontos percentuais em comparação à pesquisa de 2013. O que também indica que metade deles possui acesso à internet e costuma consultar portais de notícias e informações por meios digitais.

“Desde o final de 2018 até meados de fevereiro foram finalizados mais de 70 vídeos por cerca de 30 pessoas. E apenas parte desse conteúdo vai para nossas redes sociais. Cada um, claro, vai divulgar o que produzir diretamente em suas plataformas também”, esclarece Thiago Junqueira, gerente de Estratégia e Engajamento de Clientes da Bayer.

De acordo com a Bayer, do Rio Grande do Sul e do Paraná vêm a maior parte dos acessos a esses conteúdos digitais. Como os agroinfluenciadores ainda são poucos, não há números mais consistentes para dimensionar o retorno desses trabalhos, assim como não há um ranking que aponte os principais nomes dessa ainda incipiente geração.
“Mas da forma como esses conteúdos voltados ao agro e publicados nas redes sociais tem crescido, creio que no segundo semestre deste ano já teremos um cenário novo, com novos influenciadores e alguns de destaque”, avalia o executivo da Bayer.

A multinacional, por sinal, levará a criadora do Instagram “Ela é do Agro” para Não-Me-Toque, onde acompanhará a Expodireto e divulgará a feira e a empresa em sua rede de 18,6 mil seguidores. Assistente social por formação, Aretuza Negri, 31 anos, se aproximou do campo por gosto pessoal, criou uma conta no Instagram para divulgar sua admiração pelo setor, ganhou adeptos e hoje se dedica totalmente à rede social. Além da parceria com a Bayer na Expodireto, Aretuza fechou, neste ano, ações na Agrishow, no Congresso Nacional de Mulheres do Agronegócio e na Campo Grande Expo, no Mato Grosso do Sul.

“Me desliguei da empresa onde trabalhava até o ano passado para me dedicar ao Ela é do Agro. Não foi uma decisão fácil, mas já começo a ter retorno, tenho sido procurada por empresas e eventos”, comemora Aretuza.

De Boa Vista do Buricá para as redes sociais de todo o Brasil
O ainda inicial mundo dos “agroinfluencers” tem muito a aprender com as experiências reais e dicas virtuais de Vanderlei Holz Lermen, 27 anos, pequeno produtor de Boa Vista do Buricá, município da Região Noroeste do Estado com menos de 7 mil habitantes. A cidade, por sinal, tem menos habitantes do que o número de seguidores de Lermen em seu canal no YouTube, que tem mais de 11 mil inscritos.

“No Facebook tenho cerca de 1,5 mil solicitações de amizades pendentes, já que se pode ter no máximo 5 mil”, conta o pequeno produtor, que administra a propriedade de 10 hectares, somando terras próprias, do pai e arrendadas.

Bagagem de estudos e práticas para ser um influenciador digital Lermen tem de sobra. Além de sobreviver de atividades rurais como pecuária de leite e produção de hortaliças, ele acumula diplomas de tecnólogo em processos gerenciais e de agropecuária, é bacharel em desenvolvimento rural e atualmente faz, ao mesmo tempo, duas pós-graduações. E também ministra um curso on-line, criado por ele mesmo, sobre gestão no setor leiteiro.

Questionado sobre como é vida de celebridade digital rural, conta que em Boa Vista do Buricá o pessoal “não dá muita bola para isso”. Lermen afirma, porém, que é mais conhecido fora da cidade e até do Estado. Diz que já foi reconhecido pelas postagens no Facebook em uma cidade distante cerca de 200 quilômetros de onde mora. E que muitos dos acessos, comentários e perguntas que recebe não são postadas por produtores do Rio Grande do Sul, mas de regiões como Nordeste e Centro-Oeste.

“Nestas regiões, o pequeno produtor não tem tanto conhecimento técnico e informações de produção que aqui são mais divulgadas e adotadas. Então mesmo dicas simples que eu posto no YouTube e no Face tem muita repercussão por lá”, conta Lermen, que também é convidado para fazer palestras em diferentes cidades, especialmente para jovens.

Fonte: Jornal do Comércio