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Você sabe o que é agricultura 4.0?

Você provavelmente já ouviu falar da transformação digital em processos nos diversos setores econômicos, como indústria e comércio. É a chamada revolução 4.0, que moderniza operações por meio do uso de inteligência artificial, de internet das coisas e conexão entre sistemas. Essa onda tecnológica também está revolucionando o agronegócio e garantindo avanços na logística, na administração e na produtividade do setor.

Com desafios como aumentar a produção de alimentos para atender ao crescimento da população, melhorar a eficiência energética, e consumo sustentável de insumos, a propriedade rural passou a ser administrada como uma empresa, com gestão e controle sobre as atividades, evitando desperdício e entendendo melhor o funcionamento de todos os setores. O mercado de grãos, por exemplo, apresenta aumento de produtividade ano a ano, com o apoio da tecnologia, segundo o vice-presidente do Crea-PR, Otavio Perin Filho.

“No final da década de 1980, início da década de 1990, tínhamos a produtividade de 100 a 120 sacas de soja por alqueire, enquanto que nos dias de hoje temos a produtividade de 170 a 200 sacas na mesma área. Hoje temos agricultura de precisão, o que nos dá melhores condições de aumento de produtividade, com máquinas e insumos modernos. Temos também alta tecnologia em desenvolvimento de sementes, o que garante maior produtividade em uma mesma área cultivada. Em estudos, temos o desenvolvimento de sementes que necessitam de menor volume de água para seu desenvolvimento e produtividade”, conta Perin, enumerando alguns dos ganhos da agricultura 4.0.

Tecnologia para aumentar a produtividade
Como em outros segmentos econômicos, muitas das soluções estão surgindo com o apoio de startups. A Terris Tecnologia, de Pato Branco, auxilia o produtor rural com soluções para o monitoramento de plantio de grãos, voltadas principalmente para pequenas e médias propriedades, com menos recursos e mais dificuldade para acessar as ferramentas de aumento de produtividade.

A startup lançou o conjunto de sensor de sementes e monitor, que identifica a quantidade e a qualidade do plantio – com medição da área e contagem de sementes por metro plantado. “Se houver falha na liberação da semente pela máquina, um alarme dispara e o monitor mostra para o operador do equipamento onde está o problema. Isso ajuda bastante com a cobertura de área plantada, sem que haja falhas”, explica o CEO da startup, Josimar Tumelero.

O apoio das startups é fundamental para acelerar a evolução do agronegócio. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a população mundial será de 9,1 bilhões de habitantes em 2050, o que geraria a necessidade de um crescimento de 70% na produção de alimentos em relação ao que é produzido hoje.

“Desenvolvemos uma tecnologia fácil para o produtor que está no campo, mesmo em propriedades menores e com menos recursos, com sistema automático, preço acessível e inovação de pós-venda, para a fidelização de nossos clientes”, avalia Tumelero. A iniciativa tem sido bem aceita pelos produtores e, só no último ano, a Terris Tecnologia teve um crescimento de 300%.

O engenheiro agrônomo e coordenador da Câmara Especializada de Agronomia do Crea-PR, Almir Antonio Gnoatto, destaca também a eficiência de um trabalho apoiado pela tecnologia. “Usamos produtos para controlar determinadas pragas na colheita. Se uma startup desenvolve uma técnica para mapear as áreas com plantas não desejadas, o produtor rural pode programar a pulverização apenas na região onde está a doença, com apoio das tecnologias de georreferenciamento. Com as startups, há a abertura de um mundo de novas informações, que extrapolam a formação tradicional do engenheiro agrônomo, agregando ainda mais a seu trabalho, e garantindo uma entrega muito mais ampla, com o apoio de diversas outras áreas do conhecimento”, avalia Gnoatto.

Big Data para melhorar processos, conectar informações e pessoas
A startup Azagros Agrotecnologia desenvolveu uma plataforma para gestão de equipe técnica de empreendimentos agrícolas, focada em melhorar o relacionamento entre técnicos e produtores. “O modelo tradicional de atendimento a propriedades rurais acabava fugindo do controle da gerência das empresas, que não tinham uma ferramenta para acompanhar sua equipe. Por que não fazer algo simples, com informações úteis e pontuais que facilitasse as tomadas de decisões pelo técnico, colaborasse para a manutenção de um histórico das propriedades e fornecesse subsídios para decisões estratégicas das revendas agrícolas, empresas de consultoria e até mesmo cooperativas?”, lembra-se Vinícius Franceschi, CEO da Azagros.

O primeiro obstáculo para o desenvolvimento da plataforma foi o valor de investimento. “Para nossa surpresa, identificamos um empreendimento da região que estava sofrendo com dores que poderiam ser sanadas com essa ideia. No paradigma entre comprar o que já existia e construir uma plataforma do início, eles escolheram a segunda opção e tornaram-se os primeiros investidores de nossa startup”, conta o empreendedor.

A plataforma conecta uma revenda agrícola com o produtor e com seu consultor, um engenheiro agrônomo. Ao disponibilizar para o produtor rural essa ferramenta, a revenda consegue mapear todo o histórico da propriedade atendida, criando uma linha do tempo do cliente, por safra, e possibilitando uma leitura de situações mapeadas. “Na versão para produtores orgânicos, esse registro disponível é fundamental para a rastreabilidade dos produtos e para a certificação de talhão, que é uma porção da propriedade. O que ficaria numa agenda ou num relatório engavetado fica disponível online, em sua versão web ou móvel, em qualquer horário e lugar, possibilitando análises preditivas”, explica o CEO.

“Quanto maior for o percentual de agricultores impactados e estimulados pela tecnologia, da revenda agrícola ao produtor familiar, melhor vai ser nosso processo produtivo e maior vai ser a sustentabilidade do agronegócio. Não falo apenas de produtos virtuais, como nossa plataforma, mas de produtos palpáveis e altamente tecnológicos. Em minha opinião o desafio principal é produzir tecnologias com valores acessíveis ao produtor e que agreguem na produtividade, sempre atrelando tudo isso à sustentabilidade”, finaliza o especialista.
O engenheiro agrônomo do Crea-PR, Almir Antonio Gnoatto, vai além.

Para ele, os engenheiros que não integrarem as novas tecnologias e as soluções rápidas das startups a suas entregas, ficarão obsoletos. “Com apoio das startups, o engenheiro agrônomo consegue entregar mais segurança a seu cliente, com a possibilidade de rastreabilidade, por exemplo. Com aporte de novas tecnologias, a entrega do engenheiro vai além do serviço contratado. Ele passa a entregar valor. Quem não compreender isso, estará fora do mercado de trabalho em pouco tempo. É do jogo do conhecimento”, alerta o especialista, sobre a mudança sem volta na produção agrícola.

Fonte: G1