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Condições das chuvas mudaram em maio

Enfim, a chave virou! O mês de maio de 2020 teve chuvas superiores à média climatológica, trazendo alívio a estiagem no Rio Grande do Sul. Vários municípios da metade Oeste somaram entre 200 e 250mm de chuva. Dessa forma, a anomalia da precipitação foi positiva na maior parte do Estado. Ainda assim, alguns municípios da Planície Costeira Interna e Externa e das regiões Norte e Nordeste registraram acumulados abaixo da média climatológica. De qualquer forma, as chuvas de maio foram providenciais para recuperar parte dos mananciais.

As temperaturas mínimas ficaram com anomalias negativas, entre -1,0 e -2,0 °C, em relação à média climatológica. Já as máximas ficaram praticamente dentro do normal.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

A condição de Neutralidade continua no Oceano Pacífico Central, no entanto, as águas daquela região iniciaram processo de resfriamento neste último mês. Com isso, consegue-se observar uma pequena área com anomalias negativas na região do Niño3.4. É por isso que se fala que o inverno será com condições Neutras, com viés negativo. O trimestre março, abril e maio de 2020 ficou com anomalia de +0,3 °C, na região do Niño. As águas do Oceano Atlântico Sul estão com anomalias negativas (mas, nada extremo) que, associadas com o pequeno resfriamento que ocorre no Pacífico, podem ter seus efeitos somados e acarretar gradual redução nas chuvas no RS, ou causar maior variabilidade nas mesmas, ou seja, períodos secos intercalados com períodos chuvosos.

Ao monitorar a temperatura das águas subsuperficiais (até 300 metros abaixo do nível do mar, na região do Pacífico), nota-se que há uma grande porção de águas bastante frias, ou seja, anomalias negativas que chegam entre -4,0 e -6,0 °C, e que irão aflorar em superfície, mantendo o resfriamento por mais algum tempo. É por isso que alguns modelos têm sugerido a configuração de um episódio La Niña. No entanto, este resfriamento em profundidade está posicionado entre o Centro e o Leste do oceano, não abrangendo toda a extensão do Pacífico. A Oeste, as águas estão neutras, com leve aquecimento e é por isso que outra gama de modelos aponta para a continuidade da fase Neutra do ENOS (El Niño-Oscilação Sul).

O IRI (International Research Institute for Climate and Society) (Universidade de Columbia-EUA), em relatório divulgado no dia 11 de junho, prevê em 60% a probabilidade de que a fase Neutra continue no trimestre junho, julho e agosto de 2020. Entre os meses de agosto, setembro e outubro de 2020 e janeiro, fevereiro e março de 2021, o consenso dos modelos prevê chances de La Niña e Neutralidade praticamente iguais, variando ao redor de 45% para cada uma das fases. Por isso, é necessário ter muita cautela, pois estiagens curtas poderão ocorrer, porém é difícil dizer se serão parecidas com as da safra 2019/2020.

Previsão para a precipitação no trimestre julho, agosto e setembro de 2020

Falando sobre o mês de julho, a previsão passada, apontava para chuvas superiores à média climatológica, o que deverá ocorrer em boa parte das regiões gaúchas. Lembrando que o inverno iniciou no dia 20 de junho, às 18h44min. Para o trimestre julho, agosto e setembro é esperado que as chuvas continuem ocorrendo e fiquem na média ou acima da média.

Julho: as simulações anteriores apontavam para chuvas acima da média e passaram a oscilar um pouco. Agora, nas últimas atualizações, o modelo CFSv2 tem mostrado que as chuvas deverão ficar acima da média climatológica, principalmente na Metade Sul do RS, com valores de até +50 mm.

Agosto: a previsão apresentava bastante variação nas simulações anteriores. Agora, elas têm mostrado um agosto com chuvas um pouco acima da média na Metade Sul do Estado, com valores de até +30 mm.

Setembro: as previsões anteriores mostravam setembro mais seco, depois mudou para chuvoso. Nas últimas previsões, as simulações continuam mostrando que as chuvas serão um pouco acima da média climatológica, sendo de até +30 mm.

Estas oscilações nas previsões de precipitação para o mês inteiro são normais, visto que se está e se continuará em período de Neutralidade climática, o que significa irregularidade na precipitação. Ou seja, haverá momentos com chuva mais frequentes e fortes e outros sem ocorrência de chuvas. Haverá, também, variação na temperatura. Aliás, junho tem tido dias com temperaturas bem altas, superiores à média climatológica do mês. Esse padrão deverá ocorrer também nos meses de julho e agosto, ou seja, dias bastante frios, intercalados com períodos de temperaturas mais altas, que se aproximam dos 28°C.

Aos produtores, sobretudo os de arroz: sabe-se que nos meses de julho e agosto, não raramente, ocorrem os veranicos, ou seja, aqueles períodos mais longos de tempo seco e temperaturas mais altas do que a média. Pensando em preparo de solo para a semeadura do arroz da safra 2020/2021, o produtor deve estar atento a estes períodos, que podem ser curtos, de 7 a 15 dias. Então, quando possível, deve-se priorizar e manter as áreas bem drenadas, assim, qualquer janela de tempo mais seco possibilitará o preparo da terra.

Ressalta-se que a maioria dos produtores iniciam o processo de semeadura do arroz em setembro e/ou outubro, meses preferenciais para a semeadura do arroz, e estes meses geralmente possuem maior frequência e volume de chuvas, principalmente outubro. Então, estejam preparados!

Jossana Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.