Desafios e oportunidades da irrigação
Em um cenário de desafios hídricos cada vez mais acentuados, a irrigação se consolida como uma ferramenta cada vez mais essencial para a agricultura, permitindo que os produtores rurais mitiguem os efeitos da estiagem e aumentem a produtividade de suas culturas. O que no passado era visto por muitos como uma solução técnica isolada, passou a ser compreendido de forma mais ampla, levando em conta não apenas a infraestrutura e a tecnologia, mas também o seu impacto ambiental. Esse tema foi debatido recentemente no podcast RTC, transmitido ao vivo direto da Expodireto Cotrijal, com a participação de especialistas e produtores do setor agrícola.
Dr. Éder Mota, coordenador de difusão da CCGL, destacou a importância da irrigação para elevar os níveis de produtividade nas propriedades, permitindo que os produtores mantenham a produção mesmo em períodos de seca severa. A irrigação é fundamental para garantir a segurança alimentar e estabilidade na produção de forragens destinadas à alimentação animal, além de possibilitar a preservação da atividade agrícola, especialmente em regiões mais secas. Quando bem aplicada, ela pode transformar a realidade de uma propriedade, como ressaltou Paula Hoffmeister, assessora ambiental da Farsul, que destacou a importância da irrigação na mudança de dinâmica das propriedades rurais, como nas atividades leiteiras.
Desafios e regulação ambiental
Porém, a implementação de sistemas de irrigação envolve não apenas aspectos técnicos e econômicos, mas também um complexo cenário de regulamentações ambientais. A legislação ambiental que regula o licenciamento de atividades de irrigação, como a construção de açudes e barragens, por exemplo, passou por uma atualização recente.
Paula compartilhou detalhes sobre a nova resolução de licenciamento ambiental de irrigação, que, após um intenso processo de discussão, trouxe avanços significativos. Um dos principais pontos dessa atualização foi a simplificação do licenciamento para os equipamentos de irrigação, como pivôs e carreteis, que anteriormente exigiam licenciamento individualizado. Agora, o foco do licenciamento está no reservatório de água utilizado para irrigação, como açudes e barragens, e não mais nos equipamentos.
Além disso, a legislação isenta de licenciamento os açudes com área inferior a 5 hectares, o que representa uma simplificação importante para muitos pequenos produtores. A autorização para a supressão de vegetação nativa, entretanto, continua a ser necessária em casos específicos, especialmente quando se realiza a intervenção em áreas de preservação permanente (APP). Para captação direta em cursos d’água também há flexibilização não necessitando de licença ambiental, apenas se for fazer supressão vegetal.
A Visão do produtor: Potenciais e oportunidades
Leonardo Loureiro, produtor rural de Soledade e cooperado da Cotrijal, enfatizou que, apesar das vantagens da irrigação, muitos ainda têm receio de se envolver com as questões ambientais devido à complexidade do processo de licenciamento. O medo de enfrentar burocracia e custos com órgãos ambientais faz com que alguns produtores hesitem em implementar sistemas de irrigação.
Michel Kraemer, engenheiro agrônomo especialista em irrigação da CCGL, destacou que o principal desafio hoje é justamente esse: o desconhecimento e o medo do produtor em lidar com a legislação ambiental. Porém, com a flexibilização das normas, como a dispensa de licenciamento para equipamentos e a desburocratização de processos, ele acredita que muitos mais produtores poderão ser incentivados a adotar a irrigação e, assim, aumentar a produção agrícola, especialmente nas regiões com maior potencial de recursos hídricos.
Entre os benefícios apontados, a irrigação tem se mostrado indispensável para a manutenção da produção, principalmente no setor leiteiro. Seu Valdir Jacoby, produtor de leite de Selbach, associado da Cotrisoja, exemplificou como a irrigação foi crucial para garantir a segurança na produção de pastagem e, consequentemente, na alimentação do rebanho. Ele destacou a importância da água como o “nutriente principal” para a agricultura, que, ao ser corretamente gerida, assegura uma alta produtividade e mais estável.
Para o setor produtivo, a irrigação representa uma resposta eficiente ao problema do déficit hídrico, especialmente em anos de estiagem severa. Seu Dair Pfeifer, de Condor, associado à Cotripal, mencionou que a instalação de pivôs em sua propriedade foi resultado de uma análise cuidadosa sobre o impacto das secas nos últimos anos. A irrigação, em sua avaliação, foi um investimento necessário para garantir maior produção e qualidade da silagem, essencial para a alimentação do rebanho durante períodos críticos. Ele explicou que, ao conseguir garantir uma irrigação adequada, o custo extra com a ração foi reduzido, resultando na viabilidade econômica do investimento.
Leonardo Loureiro explicou que desde 2017, sua família tem investido na irrigação, focando na ampliação da área irrigada, com destaque para a melhoria na produção de pastagem e a qualidade do leite. A irrigação permitiu não apenas o aumento da produção, mas também um manejo mais eficiente da propriedade, refletindo diretamente na rentabilidade e na sustentabilidade do negócio.
Outro aspecto importante, discutido no podcast, é a relação entre a irrigação e a fertilidade do solo. Ao adicionar água ao solo, as raízes das plantas têm melhores condições de se desenvolver, mas é preciso garantir que o solo tenha boa estrutura física, química e biológica. Como mencionaram os especialistas, a água pode ajudar na disponibilização dos nutrientes, mas, para isso, o solo precisa ser bem preparado. O uso de palha e a manutenção da matéria orgânica, por exemplo, ajudam a preservar a umidade e protegem o solo contra as altas temperaturas, características típicas do clima brasileiro.
Além disso, a escolha das cultivares certas é crucial. Como mencionou o produtor Dair Pfeifer, nem todas as variedades de milho ou soja respondem da mesma maneira ao sistema de irrigação. Isso exige mais conhecimento e adaptação às condições locais, considerando a interação entre água, solo e clima. O foco está, portanto, em criar um ambiente favorável para o crescimento das culturas, levando em consideração a combinação entre os insumos tradicionais e a irrigação.
Por fim, o episódio trouxe à tona um ponto crucial: a irrigação não deve ser vista apenas como uma forma de aumentar a produção, mas como parte de um ecossistema agrícola que precisa ser equilibrado. Os produtores têm o desafio de pensar não apenas em como usar a água, mas também em como fazer a gestão do solo e das culturas para que o sistema seja sustentável a longo prazo. A irrigação pode ser um grande aliado, mas, como qualquer ferramenta, precisa ser utilizada com sabedoria, conhecimento e responsabilidade.
Fonte: https://rtc.coop.br/