O milho tem um ponto fraco bem conhecido dos agrônomos: o florescimento. É nessa fase que a lavoura mais sofre com a falta de chuva — e o preço pode ser alto. Segundo estudos da Embrapa, um veranico mal cronometrado no pendoamento é suficiente para reduzir o número de grãos por espiga e derrubar a produtividade em mais da metade. O alerta vale principalmente para lavouras de sequeiro em regiões de chuva irregular, mas também pede atenção redobrada de quem irriga.
Explicando de forma simples: é no florescimento que o milho troca de fase. As flores masculinas soltam o pólen no pendão, enquanto as espigas abrem os “cabelos” — os estilos-estigmas — para recebê-lo. Esse casamento dura pouco, de uma a duas semanas, mas é justamente aí que a planta bebe mais água do ciclo inteiro, com folhas cheias e transpirando no talo. Falta água nesse momento, e o número final de grãos, que está sendo decidido ali, sai prejudicado — segundo mostram dados técnicos compilados pela Embrapa.
E o que a planta faz quando a água aperta? Ela se fecha, literalmente. Os estômatos se fecham para não perder mais água, só que isso também trava a entrada de CO₂ e a fotossíntese desacelera. O problema é que esse estresse não afeta pendão e espiga do mesmo jeito: de acordo com a Embrapa, os “cabelos” da espiga sofrem mais que o pendão, o que atrasa o encontro dos dois e atrapalha a polinização. Os estigmas podem demorar para sair, secar antes da hora ou simplesmente não pegar bem o pólen. Resultado: a planta aborta flores, óvulos e até grãos que já tinham começado a se formar. No campo, isso vira espiga rala, mal granada ou, nos casos mais graves, espiga vazia.
O tamanho do estrago depende de alguns fatores: quando exatamente bateu o veranico, quanto tempo durou, o quanto esquentou e quantas plantas estão disputando a mesma água por metro quadrado. A janela mais perigosa vai de uma a duas semanas antes do pendoamento até cerca de duas semanas depois — e é nesse intervalo que a quebra pode passar de 50% em situações mais severas, na comparação com uma lavoura bem irrigada. Solo raso, compactado ou pobre em matéria orgânica só piora a conta, mesmo quando o déficit não é tão grave.
Por isso, quem espera o florescimento chegar para agir já está atrasado. A decisão precisa vir antes: olhar o histórico de veranicos da área, entender a capacidade do solo de segurar água, acompanhar a previsão climática da safra e saber quanto a irrigação disponível dá conta de cobrir. A escolha do híbrido é uma das cartas mais importantes desse jogo — priorizando materiais tolerantes ao estresse hídrico e com boa sincronia entre o florescimento macho e fêmea. A população de plantas também entra na conta: lavoura muito adensada em área com pouca água só aumenta a briga por esse recurso.
Plantio direto e palhada bem mantida seguram a umidade, reduzem a evaporação e melhoram a infiltração — além de ir aumentando a matéria orgânica com o tempo. Corrigir acidez e alumínio, e adubar direito com fósforo, potássio, enxofre e micronutrientes, dá à planta uma raiz mais profunda para ir buscar água onde ela ainda existe. E o controle de daninhas cedo, ainda em pós-emergência inicial, evita que a lavoura divida a água disponível com quem não devia estar ali.
Quando o florescimento já bateu na porta, sobra pouco espaço de manobra, mas ainda dá para agir. Em área irrigada, a regra é simples: primeiro a água vai para quem está em pré-florescimento, florescimento ou começando a encher grão — da fase VT até R2 — mesmo que isso signifique deixar para depois a irrigação plena de talhões ainda no vegetativo. Junto disso, cresce a importância de monitorar o solo de perto, com tensiômetro ou sonda de capacitância, e ficar de olho na planta: folha murcha ao meio-dia ou enrolada é sinal de que a hora de agir é agora.
Nem tudo que parece ajudar, ajuda nesse momento. Algumas práticas comuns podem sair pela culatra durante o florescimento: aplicação foliar que corre risco de fitotoxicidade, operação mecânica que machuca raiz superficial, adubação de cobertura tardia que estimula crescimento vegetativo justamente quando a planta já está sob pressão. Se sobrou daninha para controlar nessa fase, a decisão precisa pesar o estádio da cultura e o risco de dano, sempre dentro do que manda rótulo, bula e receituário agronômico.
Nutrição, manejo de pragas e de daninhas também entram nessa equação — não dá para separar. Planta bem nutrida, especialmente em potássio, regula melhor a abertura dos estômatos e aguenta mais o tranco, mas correção de última hora no florescimento tem efeito curto se o manejo não foi pensado desde o início do ciclo. Praga desfolhadora, percevejo e doença de folha sem controle tiram área foliar saudável da planta bem na hora em que ela mais precisa dela para segurar o estresse.
Qualquer intervenção na lavoura durante o florescimento — irrigar, aplicar insumo, passar máquina — exige cuidado redobrado: uso de EPI é obrigatório, e a umidade do solo precisa estar dentro do limite para não compactar. E a decisão de irrigar, segundo o material técnico consultado, deve sempre passar pelo balanço hídrico e pelo monitoramento de solo e planta, sem desperdício de água nem prejuízo ambiental.
Fonte:https://www.agrolink.com.br/